A era dos sobrediagnósticos em saúde
- cleniojschulze
- 23 de abr.
- 3 min de leitura
O Século XXI é repleto de surpresas, positivas e negativas. A área da saúde representa muito bem o cenário de novidades impactantes.
Neste sentido, é necessário divulgar o livro do ano (até agora) publicado por Suzanne O’SULLIVAN: A era dos diagnósticos: como a epidemia dos sobrediagnósticos está a afetar a nossa saúde.
O texto apresentar reflexões importantes para a sociedade e, principalmente, para entidades, órgãos e pessoas que atuam na área da saúde.
No livro a autora questiona os seguintes pressupostos geralmente aceitos:
que qualquer diagnóstico é melhor do que nenhum diagnóstico; que os exames são mais rigorosos do que os médicos; que os resultados dos exames são verdades objetivas, imutáveis; que os tratamentos que funcionam para um conjunto de pessoas irão funcionar com definitivos; que a testagem preventiva é a maior garantia de saúde a longo prazo; que possuir mais conhecimentos é sempre melhor.1
Em outra passagem O’SULLIVAN assenta:
Também questiono a cultura em que um diagnóstico parece ser necessário para uma pessoa ter acesso a ajuda. Gostaria de pensar que devia ser possível identificar as crianças com dificuldade e apoiá-las sem lhes atribuir um rótulo. Não devia ser preciso uma pessoa ser considerada deprimida para procurar ajuda do seu médico ou consultar um conselheiro de saúde mental por se sentir abatida. No entanto, para que isso mude, as seguradoras e alguns serviços de saúde deviam realizar um grande ajuste ao modo como funcionam.
De forma a resolvermos a epidemia de sobrediagnósticos, é necessário que vários intervenientes levem a cabo mudanças. Nós, o público, precisamos de aceitar as limitações da medicina e refrear expectativas irrealistas do que um diagnóstico pode alcançar. Temos de ser mais compassivos conosco mesmos quando fracassamos, bem como aceitar as nossas inúmeras imperfeições. Precisamos de ensinar os nossos filhos a trabalharem com os seus pontos fortes, em vez de utilizarmos concessões educativas para esconder as suas fraquezas.2
Como se observa, o livro trata de questões que exigem atenção da sociedade, principalmente para evitar omissões e abusos na gestão da saúde, eis que propostas desprovidas de cientificidade são divulgadas diariamente em todos os meios. E muitas novidades são trazidas e apresentadas para revolucionar a saúde das pessoas, mas não se concretizam no plano fático.
Assim, “o sucesso deveria ser contabilizado em termos de melhorias efetivas de qualidade de vida que superassem o valor de curto prazo de um rótulo.”3
A autora também trata das promessas da saúde:
A ciência da medicina preventiva é muito recente e está mergulhada em incertezas. […] Na verdade, determinar se a cirurgia preventiva de cancro prolonga de facto a vida é algo muito mais difícil do que se possa pensar – e essa é a questão principal. Se forem realizadas muitas operações para que o cancro nunca tenha oportunidade de surgir, isso significará que quase nenhuma dessas pessoas sofrerá de cancro. Porém, subsistirá sempre uma questão em torno da sobrevivência dessas pessoas – quantas terias sobrevivido na mesma sem o tratamento? Por definição, cada pessoa que teria sobrevivido sem tratamento foi sobre diagnosticada.
A controvérsia em torno dos programas de rastreio do cancro ilustra o problema.4
Ou seja, o sobrediagnóstico faz parte do quotidiano e a sociedade precisa encontrar estratégias para utilizá-lo da forma menos danosa e mais benéfica, sem excessos e sem omissões.
1 O’SULLIVAN, Suzanne. A era dos sobrediagnósticos: como a epidemia dos sobrediagnósticos está a afetar a nossa saúde. Tradução Paulo Mendes. Penguin Random House Grupo Editorial: Lisboa, 2026, p. 26. Título original: The age of diagnosis.
2 O’SULLIVAN, Suzanne. A era dos sobrediagnósticos: como a epidemia dos sobrediagnósticos está a afetar a nossa saúde. Tradução Paulo Mendes. Penguin Random House Grupo Editorial: Lisboa, 2026, p. 287. Título original: The age of diagnosis.
3 O’SULLIVAN, Suzanne. A era dos sobrediagnósticos: como a epidemia dos sobrediagnósticos está a afetar a nossa saúde. Tradução Paulo Mendes. Penguin Random House Grupo Editorial: Lisboa, 2026, p. 291. Título original: The age of diagnosis.
4 O’SULLIVAN, Suzanne. A era dos sobrediagnósticos: como a epidemia dos sobrediagnósticos está a afetar a nossa saúde. Tradução Paulo Mendes. Penguin Random House Grupo Editorial: Lisboa, 2026, p. 166. Título original: The age of diagnosis.
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